A grande literatura brasileira numa coleção de referência

A editora portuguesa Glaciar e a Academia Brasileira de Letras (ABL) lançaram os primeiros quatro volumes da coleção Biblioteca de Academia, um projeto editorial que se propõe lançar em Portugal, ao longo dos próximos anos, 25 obras fundamentais da literatura e cultura brasileiras.

Os quatro títulos já lançados – aos quais se juntará ainda este ano O Ateneu, de Raul Pompeia, uma notável singularidade impressionista na ficção brasileira do final do século XIX – mostram bem as ambições desta coleção, que aposta em edições de referência, volumosas, muito cuidadas e bastante caras. 

O primeiro volume é uma monumental compilação dos dez romances de Machado de Assis, precedidos de uma extensa apresentação do ensaísta e professor de literatura brasileira Luís Augusto Fischer, igualmente responsável pela fixação do texto. Se os romances da chamada trilogia realista de Machado de Assis – o genial Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borbas (1891) e Dom Casmurro (1899) –  foram sendo regularmente publicados em Portugal, já os seus primeiros livros, como Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874) ou Helena (1876), dificilmente se encontram nas livrarias, e ainda menos em edições fiáveis.

Com mais de 1500 páginas e capa dura, o livro custa quase 80 euros. Os restantes volumes já lançados são mais pequenos e mais baratos, com preços que andam entre 30 e os 50 euros. “Os livros são caros, não vou dizer que são baratos”, reconhece o editor da Glaciar, Jorge Reis-Sá, mas afirma que preferiu “editar obras que podem durar 20 anos”, e não pensadas para a cada vez mais vertiginosa rotação das novidades nas livrarias. “Em 15 anos como editor [co-fundou a Quasi e esteve depois no grupo Babel], nunca fiz uma coisa tão interessante”, diz.

E a verdade é que quem não tiver condições econômicas para comprar estes livros tem pelo menos a garantia de que os poderá ler sem ter de se afastar demasiado de casa, já que a Academia Brasileira de Letras encarregou a Glaciar de distribuir exemplares não apenas às poucas bibliotecas que beneficiam de depósito legal, mas a todas as bibliotecas municipais do país.

O ensaísta e poeta Antônio Carlos Secchin, membro da ABL desde 2004 e coordenador da coleção, explicou ao PÚBLICO que “no acordo feito com a Glaciar, a Academia quis ter a certeza de que todas as bibliotecas públicas portuguesas receberiam um exemplar”. Secchin, que esteve esta segunda-feira na Gulbenkian a apresentar a coleção, recorda que o projeto nasceu de uma proposta da Glaciar que a ABL adaptou. “A Academia é uma instituição privada, com  recursos próprios, e assume nos seus estatutos o compromisso de difundir a língua e a literatura nacional, e é isso que está fazendo com esta coleção”, diz ainda Secchin.

Cinco títulos por ano

Embora não sejam ainda conhecidos os volumes que sairão a partir de 2015 – a ideia é publicar cinco títulos por ano até 2018 –, o académico brasileiro adianta que “a coleção vai incidir em grandes nomes já falecidos da literatura brasileira”, em “livros clássicos, como os romances de Machado de Assis, ou Os Sertões, de Euclides da Cunha, que passaram pela prova do tempo, mas que nunca tiveram em Portugal a repercussão que justificariam”.

A única e “grata exceção” à regra de não incluir autores vivos, acrescenta Secchin, é justamente o segundo volume da coleção, a Dialética da Colonização, do historiador e crítico Alfredo Bosi, que esteve também na sessão da Gulbenkian, a falar deste seu livro originalmente publicado em 1992. A edição tem prefácio da ensaísta portuguesa Graça Capinha, autora que já desde meados dos anos 90 vem chamando a atenção para a importância das abordagens interdisciplinares de Bosi ao discurso literário. Num conjunto que será dominado pela criação literária em sentido mais estrito, a escolha de Dialética da Colonização é também um modo de mostrar que a coleção pretende ter um âmbito mais lautamente cultural e não exclui o ensaísmo.

Um dos quatro volumes já lançados é, de resto, uma das mais inclassificáveis obras da literatura de língua portuguesa de todos os tempos: o extraordinário Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, que é uma emocionante história da Guerra de Canudos e uma epopeia da vida sertaneja no final do século XIX, mas que também pertence de pleno direito à literatura científica, com a sua detalhada informação geográfica, histórica e sociológica.